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Terça-feira, 14 de Outubro de 2008

É Preciso Coragem

Abordar a temática da pobreza é remontar a uma das maiores desilusões da civilização contemporânea, a saber: A potencialidade humana não nos conduz a um inequívoco bem-estar, nem corrobora a realização dos mais belos discursos em prol da coletividade humana. Em suma, descuidamos do fato de que a razão e o conhecimento são silentes quanto ao próposito de suas aplicações.

A título de exemplo, podemos observar a tecnologia que chega em nossos lares e ambientes de trabalho, em tese, de modo bastante a nos devolver grande tempo para desfrutar a vida que nos era tomado por longos e permanentes esforços. Vemos que não passou de mera utopia as teorias de alguns visionários como Júlio Verne, pois que nos dias atuais tanto menor parece ser o tempo de desfrutar a vida quanto mais tecnologia aplicamos no dia a dia. Hoje há quem dê qualquer coisa por um dia de 48 horas. É fato também que o ser humano galgou o fascinante degrau da exploração espacial, faz 39 anos, com a chegada à lua. Isto denota grande poderio tecnológico, todavia, qualquer ser alheio a este paradoxo da civilização duvidaria deste feito, ao ver pessoas em pleno século XXI morrerem de fome e de doenças absolutamente primitivas e sanáveis como cólera e tifo. Vale dizer também que atualmente as indústrias alimentícias de todo o planeta tem capacidade de produzir alimentos suficientes para alimentar a população mundial com folga, todos os dias, e no entanto há 800 milhões de pessoas com quadros de subnutrição crônica no mundo.

Em suma: Desde há muito não se pode conceber certas mazelas humanas como fruto da limitação fática, como se ainda estivessem sob os ditames do acaso, do natural, do inexorável, mas antes, devemos admitir que hoje certos dramas humanos provêm do próprio agir da sociedade ou da sua omissão. Se outrora faltava-nos o efetivo poder (infra-estrutura, tecnologia e técnica suficiente) para impedir certos males como a fome, o tifo, a cólera, hoje falta-nos o devido interesse ou a devida vontade de gerir o potencial humano em prol de todos os homens. Eis aqui a grande desilusão do século: O potencial humano que antes era tido como algo libertador de grandes aflições humanas, na verdade é tomado de seqüestro por interesses pouco generosos, coletivistas e solidários. É o potencial humano se desperdiçando na lógica “anti-coletivista” das relações econômicas e políticas, porquanto não consegue atender o fim mais importante que um esforço humano pode colimar a meu ver, a saber: A erradicação de algumas das piores desgraças da humanidade, como a miséria e a fome.

É por isso que, mais do que consciência para transformar, o fim da pobreza no mundo requer definitivamente coragem. Consciência para mudar é algo que vemos na humanidade. Porém é a coragem o elemento mais raro. Coragem para rever e mudar padrões econômicos geradores de miséria e desigualdade. Coragem para um indivíduo dispor a sua vida pela causa social da pobreza. Coragem para questionar e mudar o paradigma individualista e materialista que cerca os costumes e o cotidiano. A consciência se satisfaz com a mera sensação e a certeza de que há muito que mudar no mundo, muito embora permita que o sujeito acolha primeiro seus exclusivos interesses mesmo que sejam antagônicos e omissivos a ela [consciência], mas a coragem é o que verdadeiramente permite dar o salto, desferir o soco na mesa, abster-se dos próprios interesses e metas sociais padrão, ela é quem faz assumir o preço da rebeldia, faz despir-se do conforto de se calar. Ela é o que retira o indivíduo do ciclo de indolência e conformismo. Por fim, é a coragem que faz questionar a “regra absoluta”, que faz nadar contra a maré do que é tido como certo e pacífico na sociedade, mas que é incompatível com a possibilidade de inexistir pessoas que morram de fome, agonizem na miséria.

Tudo isso nos permite concluir que o fim da pobreza no mundo não é mais questão de infra-estrutura e viabilidade, mas sim de se fazer efetivamente com coragem, como se quis, com coragem, pisar na lua, como se quis, com coragem, alcançar outros grandes feitos na história da humanidade. É chegado um momento único, em que a humanidade pela primeira vez tem poder e boa parte dela a consciência, reunidos em favor da extinção de grandes males como a pobreza, mas o ingrediente final é que mais nos falta. Encontremos a coragem para transformar o dia de hoje ou atenuaremos, suavizaremos, porém nunca restará eliminada a pobreza, a miséria, as mazelas que persistem nutridas pela negligência e indolência dos que podem, querem e não transformam.




O Blog Una Vox aderiu a esta campanha.



Sábado, 11 de Outubro de 2008

Blog Action Day 2008



Quinta-feira, 19 de Junho de 2008

Bully (Filme)


O filme Bully (2001), tal como kids (1995), do mesmo diretor Larry Clark, espanta pela fidelidade com que é retratado o ambiente e o comportamento dos jovens adolescentes de hoje. BullySem entrar em detalhes com relação ao filme (Sinopse Aqui), ou mesmo sem considerar o ponto principal do filme que é o comportamento "bullying", vale a pena abordar alguns aspectos "periféricos" do filme com relação aos comportamentos de pais e adolescentes americanos, cujo padrão familiar se assemelha em muito ao brasileiro. O primeiro ponto a se considerar é a absoluta cisão afetiva entre pais e filhos. O filme mostra pais completamente desconectados com o mundo dos filhos, algo que ao meu ver, normalmente nunca tarda a surgir em uma família de classe média hodierna, começando, por exemplo, com uma conveniente "terceirização da educação", que consiste em encarregar babás da formação e educação moral dos filhos, como se isso fosse possível sem uma relação afetiva madura e profundamente estabelecida. È adotado por várias razões, sendo a principal delas, a entrada da mulher no mercado de trabalho.

O segundo ponto que gostaria de destacar é o nível de alienação da maior parte dos adolescentes em relação à sociedade, com absoluta indiferença em relação aos valores e problemas nela existente. O resultado disso é a falta de comprometimento dos garotos com o mundo ao redor, este mesmo mundo que os alimentam com vestuário fino, lar, carros de luxo e demais confortos, e não obstante, tais jovens acabam por fundar um verdadeiro submundo com valores e regras próprias de prazer, dominação e punição.

O terceiro e último ponto que vale a pena ressaltar é o quão determinados e calculistas se mostram ao planejar um assassinato, porém logo após lograrem êxito, quão repentino é o comportamento de culpa, tal como se despertassem de uma "hipnose" (o famoso "caiu a ficha"), com uma inversão repentina de postura, agindo com desmedida "infantilidade". Este é um ponto genialmente abordado pelo filme, que reproduz o reconhecimento tácito dos adolescentes em relação às suas condições de inexperiência, inconsequência e carência afetiva, através do descontrole emocional, muito choro, desespero e um caloroso abraço no irmão dado por Marty (vítima de bullying).

Há diversos outros pontos a serem abordados no filme, porém, estes foram os que mais me chamaram a atenção, por guardarem grandes semelhanças com o padrão de jovens de várias partes do mundo que também deitaram um dia no berço farto de amoralidade, desregramento e apatia.

Segunda-feira, 2 de Junho de 2008

Roda Viva

Mais uma semana se inicia. Neste labor sisifiano, vamos rolar novamente a pedra até o cume do morro. E na arte de ser humano, extrair o prazer do dia que nos é dado a superar, construir e suportar. E como em um jogo, lançar-se à sorte, jogar os dados, assumir o risco, pois prazer nenhum há em jogo de cartas marcadas. E como em um duelo, desembanhar a espada e choca-la contra a outra, pois o prazer é a centelha que aí se produz. Impossível fugir disso pois o prazer na vida só pode mesmo ser negociado. Não está mais na coisa a ser comprada do que no preço que por ela se paga. E para completar o que quero dizer, e, para o bem dos ouvidos, uma bela composição de Chico Buarque, intitulada Roda Viva. O vídeo abaixo foi gravado em 1967, no festival de música brasileira da Record. Tenha uma boa semana.


Roda Viva (Chico Buarque)

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu...

A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou...

A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

O samba, a viola, a roseira
Que um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou...

No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá ...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas rodas do meu coração...(4x)

Sábado, 31 de Maio de 2008

Desenvolvimento? Onde?


Os jornais diários noticiam: "PIB brasileiro bate recorde", "Brasil bate recorde em exportação" ou mesmo "aumenta a confiança dos investidores estrangeiros no Brasil". O sentimento de euforia reverbera em todas as classes sociais. Será mesmo? Não, pois deste grande e apetitoso bolo só comemos as migalhas que caem da mesa.
Enquanto nossos governantes entram no jogo imposto pela hegemonia econômica deste país e do mundo, se esquecem que o Brasil no ano passado caiu 4 posições no ranking de educação da Unesco. Enquanto champanhas são estouradas pelas "grandes conquistas", a Dengue dizima a população, ou seja, uma doença absolutamente retrógrada e controlável se não fosse a indolência daqueles que nos governam. Eu poderia citar vários problemas deste país que já deveriam ter sido resolvidos e ainda não foram, mas não há necessidade pois você já os conhece tão bem quanto eu.por Guito
Meu propósito aqui é estragar esta festa, sim, pois não há o que comemorar. Porque não é o PIB ou a balança comercial que mede a realidade socio-econômica de um país. Mas são o nível de saúde, desigualdade social, educação, segurança e saneamento básico os melhores "termômetros" para isto. Tenho certeza que são estas as conquistas dignas de nossa euforia. Todavia certamente alguém diria: O "crescimento econômico" impulsiona a melhoria de todos. Mas em que medida isso ocorre? Eu reitero que este bolo é dividido de maneira muito desigual e acreditar nisso é utopia e perda de tempo. Amartya Sen, economista indiano, vai na contramão da tendência em acreditar nestes índices como sinônimo de prosperidade social. Ele afirma que é a superação de problemas como a fome e ameaças ao meio ambiente (que ainda existe neste país) o verdadeiro norte pelo qual um país deve alcançar seu desenvolvimento. Infelizmente não é o caso do Brasil. E definitivamente quando pudermos festejar notícias boas como: "desmatamento não ameaça a Amazônia", "não há mais prisões superlotadas" ou mesmo "não há mais crianças subnutridas no Brasil" tenha certeza de que virei aqui e deixarei minhas eufóricas linhas, com muito orgulho.

Terça-feira, 27 de Maio de 2008

"Causos" de Eleições...


A eleição no Brasil de prefeitos e vereadores, sobretudo em pequenos municípios e vilarejos do interior, é uma das coisas mais infelizes deste país: De um lado, os muitos candidatos que (salvo raras exceções), bem mais do que empenharem-se para efetivas melhorias sociais, buscam mais do que nunca insculpir seus nomes na memória dos votantes. Para isso, muitas vezes deixam de lado a ética e o pudor, sem qualquer timidez, já que em época de eleição, "doações" de cestas básicas, caixão, materiais de construção e prestações de favores são "colírio" para os olhos daqueles que haveriam de provocar qualquer ameaça.
É como calar o choro de criança com doces e brinquedos. Do outro lado estão as massas miseráveis que esmolam perante os candidatos o asfaltamento de sua rua, óculos, cestas básicas, emprego e tudo o que há de mais essencial. Na verdade aqui temos um paradoxo: O eleitor deve ser criterioso, não vender seu valioso voto e postar-se como um verdadeiro patrão a contratar um funcionário, diante do seu candidato. Porém, troca a única esperança de dar a sua vida a devida dignidade, por aquilo que lhe enche os olhos e a barriga no presente. Estamos diante de um verdadeiro círculo vicioso. A boca que haveria de censurar a falta de ética e decoro dos candidatos estão ocupadas comendo migalhas. È a democracia refém da torpeza.

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