É Preciso Coragem
Abordar a temática da pobreza é remontar a uma das maiores desilusões da civilização contemporânea, a saber: A potencialidade humana não nos conduz a um inequívoco bem-estar, nem corrobora a realização dos mais belos discursos em prol da coletividade humana. Em suma, descuidamos do fato de que a razão e o conhecimento são silentes quanto ao próposito de suas aplicações.
A título de exemplo, podemos observar a tecnologia que chega em nossos lares e ambientes de trabalho, em tese, de modo bastante a nos devolver grande tempo para desfrutar a vida que nos era tomado por longos e permanentes esforços. Vemos que não passou de mera utopia as teorias de alguns visionários como Júlio Verne, pois que nos dias atuais tanto menor parece ser o tempo de desfrutar a vida quanto mais tecnologia aplicamos no dia a dia. Hoje há quem dê qualquer coisa por um dia de 48 horas. É fato também que o ser humano galgou o fascinante degrau da exploração espacial, faz 39 anos, com a chegada à lua. Isto denota grande poderio tecnológico, todavia, qualquer ser alheio a este paradoxo da civilização duvidaria deste feito, ao ver pessoas em pleno século XXI morrerem de fome e de doenças absolutamente primitivas e sanáveis como cólera e tifo. Vale dizer também que atualmente as indústrias alimentícias de todo o planeta tem capacidade de produzir alimentos suficientes para alimentar a população mundial com folga, todos os dias, e no entanto há 800 milhões de pessoas com quadros de subnutrição crônica no mundo.
Em suma: Desde há muito não se pode conceber certas mazelas humanas como fruto da limitação fática, como se ainda estivessem sob os ditames do acaso, do natural, do inexorável, mas antes, devemos admitir que hoje certos dramas humanos provêm do próprio agir da sociedade ou da sua omissão. Se outrora faltava-nos o efetivo poder (infra-estrutura, tecnologia e técnica suficiente) para impedir certos males como a fome, o tifo, a cólera, hoje falta-nos o devido interesse ou a devida vontade de gerir o potencial humano em prol de todos os homens. Eis aqui a grande desilusão do século: O potencial humano que antes era tido como algo libertador de grandes aflições humanas, na verdade é tomado de seqüestro por interesses pouco generosos, coletivistas e solidários. É o potencial humano se desperdiçando na lógica “anti-coletivista” das relações econômicas e políticas, porquanto não consegue atender o fim mais importante que um esforço humano pode colimar a meu ver, a saber: A erradicação de algumas das piores desgraças da humanidade, como a miséria e a fome.
É por isso que, mais do que consciência para transformar, o fim da pobreza no mundo requer definitivamente coragem. Consciência para mudar é algo que vemos na humanidade. Porém é a coragem o elemento mais raro. Coragem para rever e mudar padrões econômicos geradores de miséria e desigualdade. Coragem para um indivíduo dispor a sua vida pela causa social da pobreza. Coragem para questionar e mudar o paradigma individualista e materialista que cerca os costumes e o cotidiano. A consciência se satisfaz com a mera sensação e a certeza de que há muito que mudar no mundo, muito embora permita que o sujeito acolha primeiro seus exclusivos interesses mesmo que sejam antagônicos e omissivos a ela [consciência], mas a coragem é o que verdadeiramente permite dar o salto, desferir o soco na mesa, abster-se dos próprios interesses e metas sociais padrão, ela é quem faz assumir o preço da rebeldia, faz despir-se do conforto de se calar. Ela é o que retira o indivíduo do ciclo de indolência e conformismo. Por fim, é a coragem que faz questionar a “regra absoluta”, que faz nadar contra a maré do que é tido como certo e pacífico na sociedade, mas que é incompatível com a possibilidade de inexistir pessoas que morram de fome, agonizem na miséria.
Tudo isso nos permite concluir que o fim da pobreza no mundo não é mais questão de infra-estrutura e viabilidade, mas sim de se fazer efetivamente com coragem, como se quis, com coragem, pisar na lua, como se quis, com coragem, alcançar outros grandes feitos na história da humanidade. É chegado um momento único, em que a humanidade pela primeira vez tem poder e boa parte dela a consciência, reunidos em favor da extinção de grandes males como a pobreza, mas o ingrediente final é que mais nos falta. Encontremos a coragem para transformar o dia de hoje ou atenuaremos, suavizaremos, porém nunca restará eliminada a pobreza, a miséria, as mazelas que persistem nutridas pela negligência e indolência dos que podem, querem e não transformam.
O Blog Una Vox aderiu a esta campanha.






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